Relato da Luz Canela* do Distrito Federal

Minha vida esteve muito dura e cheia de incertezas, todos os dias em plena pandemia eu pensava como iria fazer pra pagar as contas, garantir a alimentação minha e de minha filha e neta e meu filho. O auxílio quando saiu garantiu a comida na mesa, já as contas básicas, energia elétrica e água viraram uma bola de neve. No início da Pandemia eu praticava meditação, yoga, condicionamento físico, dança afro estava disposta, me sentido forte,destemida,tudo isso na tentativa de manter minha saúde mental e física,apesar da insegurança no que seria da humanidade. Fiquei no pique por quase o ano de dois mil e vinte todo,consegui trazer minha mãe e sobrinhas pra “treinar” comigo.Elas ficaram firmes no “treino”por um par de meses…Mas um dia em plena pandemia perdemos um conhecido de anos e anos, dono da lan house.Em seguida um primo,uma tia ,um tio e outros internados em estado grave. Não grave. Não sabendo como lidar com essas perdas fui perdendo a disposição e entusiasmo nos “treinos” fui murchando como uma planta que não estava sendo regada. Sofri assédio e tentativa de abuso sexual dentro de casa por um familiar de toda vida. Inacreditável, meu chão saiu dos pés, eu não conseguia mais comer nem dormir. Qualquer barulho no portão eu ficava apavorada acordava e ia pra janela olhar se era alguém que representasse ameaça de abuso contra mim, passei a empurrar o sofá e a mesinha pra travar a porta e ficar mais segura, na minha mente eu estava segura. Não sabendo como explanar isso na família mudei meu comportamento ficava tempo todo deitada com somo excessivo, não conseguia comer(anorexia nervosa)peso 63kg, cheguei a 49kg. Pensei em suicídio,escondí facas tesouras e qualquer coisa com a qual eu pudesse me ferir. Me protegi como pude. Mas o abusador um integrante de confiança da familia não desistiu. Ao ter minha recusa em aceitá-lo,veio a violência e abuso físico e psicológico, nesse momento fiquei muito revoltada com toda essa luta solitária e chamei a polícia no dia que fui cuspida e humilhada por recusar-me a ter práticas sexuais com ele…Consegui uma medida protetiva que nunca me protegeu. Houve reincidência e nem sequer encontraram a primeira medida protetiva, e ainda sofri com a arrogância, desprezo e despreparo do agente que me atendeu… Consegui fazer com que o abusador fosse afastado. A partir daí a tragédia só estava começando,a família machista ficou do lado do abusador, me desacreditaram, me desumanizavam, me tratavam como um incômodo, ingrata e barraqueira só porque me defendi. Consegui me impor com muita luta após diversas discussões sobre a veracidade dos abusos, mesmo elas tendo presenciado e sido vítimas também de episódios de extrema violência objetos lançados em minha direção e delas… Ainda assim elas colocaram em dúvida se houve abuso ou não. Dessa forma minha saúde mental foi minando eu cada vez mais tempo na cama apática e extremamente desiludida com a vida…

Logo vieram mais óbitos de pessoas queridas íntimas. Apesar de tudo isso consegui contato com as facilitadores de um Curso de práticas jurídicas popular e foi o que me deu novo impulso na busca pra conseguir vencer as crises de pânico que após quatorze anos estavam voltando sutilmente, conseguir resistir ao desejo de tirar minha própria vida, consegui me importar com minha saúde, comecei a tomar uma vitamina pra voltar a ter fome… 

Agora fazem dois meses que me sinto muito bem apesar das dores dos lutos e dos pesares…Voltei às aulas de Dança Afro, tive formação online como Facilitadora no Curso de práticas jurídicas populares. Agora atuando na formação de dezenas de mulheres que sofrem violência intrafamiliar e fora do lar… Me sinto melhor de saúde mental. Mas sei que a qualquer momento terei que procurar ajuda psicológica pra tentar viver com mais qualidade de vida…

[*Os nomes são inventados.]

Dados gerais da autora do relato:

#DF #43anos #Preta #NaoTemReligiao #EnsinoSuperiorIncompleto #JuntasNaPandemia

Publicado por Grupo RepGen

Grupo de Pesquisa Gênero, Reprodução e Justiça - RepGen. Reúne pesquisadoras da UFBA, Fiocruz e UFRJ.

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