Relato da Raquel* de São Paulo

A pandemia cobre um tempo tão borrado na vida (quando começamos a nos trancar em casa sem nenhuma orientação pública pra isso, depois a falta de condução de políticas públicas ou de confusão entre o que dizia a prefeitura, o governo do estado e o catastrófico governo federal; quando nos apavorávamos com os números de mortes diários na Itália, e depois quando esses números viraram os nossos, e os nossos números ficaram ainda maiores; quando achávamos que duraria algumas semanas e depois quando já nem lembrávamos mais há quanto tempo durava…) mas tão borrado, que nem sei mais dividir tão bem o período pré-pandemia da vida hoje – que dirá da vida que nos espera. Só sei que quando perdi minha dinda pro covid-19, quando quase perdi um dos meus melhores amigos, quando os “números” começaram a ganhar rostos conhecidos e amados, a noção de que estamos vivendo uma pandemia se materializou como um baque pra mim.

Ainda assim, com a possibilidade de trabalhar em casa e contar com recursos para me manter no período, sei que esse baque foi muito menor do que para muitas outras pessoas. Mas mesmo no universo da minha casa, um baque desigual na comparação com os homens com quem vivo: fiquei muito mais sobrecarregada com o trabalho doméstico do que eles, e isso ainda está longe de ter solução (não começou com a pandemia, ainda que tenha se agravado com ela, e sei que não vai terminar quando a superarmos).

Em relação à vida sexual e reprodutiva, um episódio traduz bem a grande confusão que esse período significa pra mim: fiquei grávida pela primeira vez. Já desconfiava na véspera do ano novo de 2020 para 2021 (aquele ano novo já difícil pela distância e por haver pouco o que celebrar) e combinei com meu companheiro que esperaríamos o dia primeiro para ir atrás de um teste. As famigeradas duas listras do exame de farmácia não eram exatamente o “feliz ano novo” que eu queria…

Desde o primeiro momento já soube o que faria: abortaria. E isso não é um efeito da pandemia, faria exatamente o mesmo antes dela, tenho certeza sobre isso nesse momento. O que a pandemia afetou foi em como levar adiante essa decisão com segurança. Aconselhada por feministas que fornecem apoio e informação sobre o processo, procurei realizar um exame de utrassonografia para descartar uma gestação ectópica (situação em que a gestação seria inviável e precisaria de atendimento) e saber com exatidão o tempo gestacional e as condições gerais. Acontece que, além de ser início de janeiro, em que me parece que a oferta de exames fica prejudicada pelo período de férias de trabalhadores, a pandemia desorganizou totalmente os serviços (a pandemia e a péssima gestão dela, claro). E parecia impossível conseguir um exame de USG pelo meu plano (a espera para marcação estava em mais de um mês!). Pelo SUS, achei melhor evitar porque, sem o reconhecimento do direito ao aborto, um exame de confirmação de gestação gera um encaminhamento para o início de pré-natal (o que acho super interessante, não fosse a falta da possibilidade de decidir pela interrupção, mesmo). Então tive que buscar atendimento particular, um gasto bem maior e que não está acessível para a maior parte das mulheres, para conseguir realizar o exame logo, do contrário a gestação avançaria o aborto ficaria muito mais complexo. Uma vez resolvido isso, o resto eu consegui acessar graças ao apoio de muita gente querida. Fiz o aborto com medicamentos e acompanhamento de rede de feministas, companheiro, amigas e amigos. Acho que é a minha maior sorte: poder ter contado com tanto apoio e ter feito desse momento um momento de muita tranquilidade, carinho e alívio – apesar da proibição e, sobretudo, apesar da pandemia…

A partir desse episódio, me dei conta que todo o meu cuidado com a saúde sexual e reprodutiva estava bagunçado (ciclo alterado pela saúde mental igualmente alterada rsrs, exames de rotina atrasados por medo da pandemia) e busquei me colocar em dia com isso, mas entendi que não era só o meu medo da pandemia que se colocava como uma barreira entre mim e o atendimento: assim como quando precisei no período da gravidez, depois também foi bem mais difícil do que era antes da pandemia conseguir consulta ginecológica e mesmo exames. Vamos ver o que nos espera logo a frente, mas desconfio que, se não nos levantarmos contra os ataques contra os nossos direitos que só se ampliam no Brasil, a pandemia pode passar e o acesso a cuidados em saúde sexual e reprodutiva vai seguir piorando no país 😦 (Toda forma, fica minha profunda admiração para quem atua para que esse cuidado aconteça em qualquer cenário, mesmo os mais desfavoráveis, sejam as feministas que apoiam mulheres, os profissionais de saúde que não se deixam levar pelo barbarismo desumanizado e todas as pessoas que tomam pra si a responsabilidade de dividir mais igualmente o trabalho de cuidar).

A pandemia vai acabar e ainda teremos um mundo novo inteirinho por construir.

[*Os nomes são inventados.]

Dados gerais da autora do relato:

#SP #37anos #branca #naotemreligiao #posgraduaçao

Publicado por Grupo RepGen

Grupo de Pesquisa Gênero, Reprodução e Justiça - RepGen. Reúne pesquisadoras da UFBA, Fiocruz e UFRJ.

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